A Safira Viajante
Uma lágrima cai de seus olhos, uma lágrima que traz lembranças já à muito esquecidas, memórias passadas, que uma vez enterradas, jamais deveriam voltar do mais profundo calabouço de sua mente – O fogo estava por toda parte, não havia nada, não havia ninguém, apenas o eco tenebroso de seus entes queridos sendo dilacerados como uma lebre entre as presas de um lobo, seu corpo não se move, suas mãos tremem como um dente-de-leão exposto ao vento, o cheiro de sangue entra, e sai rasgando desejos de que aquilo tudo não passe de um pesadelo, a floresta morre pouco a pouco, e a seiva, que escorre entre as árvores, é como a lágrima que revela a sua desistência – Nada pode ser feito, aqueles braços jovens e magros, ainda mal sabem como erigir uma espada, aqueles olhos meigos e gentis, mal conhecem a atrocidade, e aquele espírito puro e doce jamais sentira, a fúria, e a dor de uma tragédia.
Um choro de criança o tira do transe diabólico, uma menina que aparenta sua idade, chora escondida entra as plantas, ele pega sua mão, e tenta ir para um lugar seguro – Mas seu destino já está selado: solidão, dor, fúria e desejo de vingança. Um golpe rápido e brutal de espada divide a menina em dois pedaços, ele segura a mão da garota morta como se fosse um pedaço de carne que acabára de ser caçado, a espada ainda não terminou seu trajeto, e dessa vez vem em direção de seus olhos, deixando um rastro escarlate que provém da pobre menina – Um estouro de ar arremessa o garoto alguns metros, Illidan, seu tutor, que ainda sobrevive, segura o golpe com o músculo lombar, o sangue quente e grosso espirra no rosto do garoto, ele sente o gosto amargo do líquido rubro em seus lábios. Illidan passa suas lâminas sobre o peito do inimigo, e o movimento bruto e cruel resulta em uma cena medonha: o couro é rasgado como se fosse seda, as entranhas são despedaçadas com o vácuo do golpe, os ossos são fragmentados como papel, o corte é tão rápido que o sangue se dissipa antes de tocar o solo com o calor gerado das lâminas, a chuva de sangue era como milhares de alabandinas se liquefazendo em câmera lenta, a onda de ar que o impacto causa poderia causar aerofobia a um deus.
O garoto, empedernido, escuta as últimas palavras de seu tutor Illidan – O grande elfo de olhos cor aspilota explica ao jovem que a vila foi atacada, enquanto o mesmo se encontrava fora, e que tal ataque se devia ao fato do garoto ser especial, e que o alvo era ninguém mais, ninguém menos, que o próprio garoto. Illidan remove suas armas lameliformes e as entrega ao menino, e diz que ele deve fugir para longe e deve sobreviver custe o que custar. O garoto da um abraço no corpo cálido de seu querido tutor, o gesto afável sela o último contato com seu povo.
O menino corre pela floresta, e recorda momentos felizes e prósperos que viveu com seu povo até determinado momento, o pranto em seu rosto passa por uma mudança tênue entre a felicidade e o ódio, as primeiras gotas simbolizam os momentos jubilosos e de prestígio, e as gotas seguintes representam a fúria, a cólera mortal que irá consumir o jovem para o resto de seus dias. Ao sair da floresta e ver claramente a lua, que agora já não é mais borrada com as folhas de cor esmeralda da floresta, o menino escuta um último grito, inspira o último bafo fogoso, recorda a última lembrança, e derrama a última lágrima. Não há mais dor, não há mais felicidade, não há mais nada, apenas um desejo incontrolável de vingança, as lâminas de Illidan brilham com a luz da lua, e ao iluminar o sangue, o brilho é tão intenso que as armas parecem feitas de crocal. Os olhos do garoto, que antes eram brancos como galactitas, agora se tornam escuros e opacos, como uma azeviche.
Dimitri Riot Aluren, o elfo druida-negro que sobreviveu, enxuga suas lágrimas e varre suas lembranças mais uma vez, até quando as lembranças irão durar nem mesmo ele sabe, mas, o garoto franzino que não sabia empunhar a espada naquele dia fatídico, agora é um elfo com um metro e oitenta de altura, uma espada congelante nas costas que mede um metro e oitenta e cinco de altura do cabo a ponta, e trinta centímetros de largura, em seu sangue corre a linhagem druida, e enquanto caminha no escuro da noite novamente, não se ve nada mais além do brilho azul-celeste de sua espada, o brilho é tão bonito que se parece com uma agafita esculpida em tal formato. Dimitri, "A Safira Viajante" como é conhecido, segue mais uma vez sem rumo, sem direção, apenas procurando vestígios que possam conceder algum tipo de assistência para sua vingança.